Dia das Mães: um vinho para acompanhar a comida que só a sua mãe sabe fazer
Gastronomia

Dia das Mães: um vinho para acompanhar a comida que só a sua mãe sabe fazer

Tem comida que a gente pode até tentar reproduzir, seguir receita, medir ingrediente, respeitar tempo de forno. Mas nunca fica igual.

Tem comida que a gente pode até tentar reproduzir, seguir receita, medir ingrediente, respeitar tempo de forno. Mas nunca fica igual.

Não é técnica. É outra coisa.

É o jeito de mexer a panela, o ponto que ela reconhece no olhar, o tempero que nunca foi anotado em lugar nenhum. É memória. É cuidado. É presença.

E talvez seja por isso que, no Dia das Mães, mais do que escolher um presente, eu sempre penso na mesa.

Naquela comida que tem cara de casa, de domingo sem pressa, de gente que se ama de verdade, de conversa solta ao redor da mesa, sem cerimônia.

Na minha casa, por exemplo, tinha um clássico absoluto: frango assado com batatas. Era prato de domingo, de reunir todo mundo, de casa cheia e conversa longa. Até hoje, só de lembrar do cheiro saindo do forno, já vem junto uma emoção muito grande, uma saudade imensa. Que saudade da minha mãezinha, a melhor mãe do mundo e a melhor cozinheira também.

Mas cada mãe tem o seu repertório

Tem a galinhada fumegante que chega cheia de sabor. O arroz com feijão bem feito, que parece simples, mas não é. O estrogonofe cremoso que atravessa anos sem precisar mudar nada. A lasanha à bolonhesa que vira tradição de família.

Tem também o frango com quiabo, o peixe assado leve e perfumado, a feijoada que pede mesa cheia e tempo, a rabada que cozinha devagar até ficar macia, a costela com batata e agrião que abraça, sem pedir licença

E os doces… aqueles que encerram tudo com afeto e memória. O pudim de leite, com receita que atravessa gerações. A mousse de chocolate, o brigadeiro de colher, sempre presentes. E, na hora do café, para fechar com aquele conforto que só casa de mãe tem, os bolos: primeiro o de laranja, depois o de cenoura com cobertura de chocolate.

Cada prato carrega uma história. E é justamente aí que entra o vinho.

Não como regra. Nem como manual. Mas como extensão desse momento.

Para pratos mais leves, como peixe assado, frango com quiabo e o frango com batatas, eu gosto de brancos frescos, com boa acidez, como o Quinta Dona Maria, do Júlio Bastos, que segura lindamente esse tipo de prato.

Dona Maria — Foto: Divulgação
Dona Maria — Foto: Divulgação

No estrogonofe cremoso, eu vou de um branco mais estruturado, mas com boa acidez, para equilibrar a gordura do creme e manter o prato leve no paladar, como o grego Ambelos Phos, da Zacharias Winery, um branco espetacular feito com as uvas nativas Roditis e Moschofilero, vai fazer bonito aqui.

Vinho grego Ambelos Phos, da Zacharias Winery — Foto: Divulgação
Vinho grego Ambelos Phos, da Zacharias Winery — Foto: Divulgação

Já para a lasanha à bolonhesa, eu iria de um tinto de médio corpo, elegante, que acompanha o molho sem dominar, como o Madame Franc, da La Grande Bellezza, que tem essa medida certa de presença e delicadeza.

Madame Franc, da La Grande Bellezza, que tem essa medida certa de presença e delicadeza. — Foto: Divulgação
Madame Franc, da La Grande Bellezza, que tem essa medida certa de presença e delicadeza. — Foto: Divulgação

E, para pratos mais intensos como rabada e costela bem feita, prefiro tintos com mais presença, mas sempre com equilíbrio. Nada pesado demais, porque a ideia aqui não é disputar espaço com a comida, é caminhar junto. O Quinta das Cerejeiras Grande Reserva, de Lisboa, entra aqui com muita harmonia.

Madame Franc, da La Grande Bellezza, que tem essa medida certa de presença e delicadeza. — Foto: Divulgação
Madame Franc, da La Grande Bellezza, que tem essa medida certa de presença e delicadeza. — Foto: Divulgação

Na feijoada, por exemplo, eu sigo gostando muito dos espumantes. Eles limpam o paladar, seguram a gordura e deixam a experiência mais interessante, e o Cave Geisse Amadeu Nature da Família Geisse é delicioso e funciona muito bem aqui.

Cave Geisse Amadeu Nature da Família Geisse é delicioso e funciona muito bem aqui. — Foto: Divulgação
Cave Geisse Amadeu Nature da Família Geisse é delicioso e funciona muito bem aqui. — Foto: Divulgação

E nos doces, especialmente aqueles de casa, simples e cheios de memória, dá para brincar bonito.

Para o pudim de leite, um vinho de colheita tardia vai ficar lindo, como o sul africano Nederburg Winemasters Noble Late Harvest, que traz doçura equilibrada e frescor na medida.

Winemasters Noble Late Harvest, que traz doçura equilibrada e frescor na medida. — Foto: Divulgação
Winemasters Noble Late Harvest, que traz doçura equilibrada e frescor na medida. — Foto: Divulgação

Para a mousse de chocolate e o brigadeiro de colher, nada como um bom Vinho do Porto, e aqui o Quinta da Pacheca Tawny é uma escolha deliciosa, tipo o par perfeito.

Quinta da Pacheca Tawny é uma escolha deliciosa, tipo o par perfeito. — Foto: Divulgação
Quinta da Pacheca Tawny é uma escolha deliciosa, tipo o par perfeito. — Foto: Divulgação

E, na hora do café, acompanhando o bolo de laranja ou o de cenoura com chocolate, um Sauternes, como o Calvet Reserve du Ciron, faz um fechamento dos mais bonitos, pra ficar na memória.

Calvet Reserve du Ciron, faz um fechamento dos mais bonitos, pra ficar na memória. — Foto: Divulgação
Calvet Reserve du Ciron, faz um fechamento dos mais bonitos, pra ficar na memória. — Foto: Divulgação

Mas, no fim das contas, a verdade é uma só: não é sobre acertar a harmonização perfeita.

É sobre sentar à mesa, servir um vinho que faça sentido para aquele momento e deixar que o resto aconteça naturalmente.

E se faltou aqui aquele prato que só a sua mãe faz, não tem problema.

O mais importante, nesse dia, é uma coisa só: estar com ela. Aproveitar cada instante, cada conversa, cada gesto.

Porque o tempo passa rápido demais.

E algumas coisas, como a comida de mãe, a gente não explica.

A gente guarda.

Feliz Dia das Mães!

Elaine de Oliveira

Sobre Elaine de Oliveira

Sommelière e jornalista de vinhos da Marie Claire. À frente do Boa de Copo, trabalha para descomplicar o mundo do vinho de um jeito leve e gostoso.

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