Dia das Mulheres: protagonistas da própria taça
Enoturismo

Dia das Mulheres: protagonistas da própria taça

Há um pequeno gesto que diz muito sobre o tempo que vivemos. O garçom entrega a carta de vinhos ao homem da mesa. Ele nem chega a abrir, sorri e passa para ela. É ela quem lê com calma, pergunta da safra, quer saber do produtor, do estilo,

Há um pequeno gesto que diz muito sobre o tempo que vivemos. O garçom entrega a carta de vinhos ao homem da mesa. Ele nem chega a abrir, sorri e passa para ela. É ela quem lê com calma, pergunta da safra, quer saber do produtor, do estilo, pensa na harmonização com o que pediram. É ela quem decide o que o casal vai beber.

A cena pode parecer banal, mas ela se repete.

Nos últimos anos, algo mudou sensivelmente no Brasil. As mulheres deixaram de ser coadjuvantes na mesa e passaram a ocupar com naturalidade o lugar da decisão quando o assunto é vinho. E eu não falo isso baseada em estatísticas frias. Falo do que vejo acontecer diante de mim, dia a dia.

Nas minhas aulas, as turmas estão cada vez mais femininas. Mulheres curiosas, atentas, fazendo perguntas técnicas, querendo entender solo, método de produção, tempo de amadurecimento. Não querem apenas saber se o vinho é gostoso. Querem entender por que ele é gostoso. Querem autonomia para escolher.

Nas viagens que organizo para grupos pelo Brasil e fora dele, são elas que lotam as vagas. Chamam amigas, se organizam e transformam a experiência em momentos de troca e descoberta. O vinho vira ponte para conversa, descoberta, amizade e também para conhecimento.

Nos restaurantes, vejo cada vez mais mesas só de mulheres. Encontros depois do trabalho, aniversários, jantares sem motivo específico além da vontade de estar juntas. No centro da mesa, uma garrafa. O vinho deixou de ser um detalhe e virou parte desse momento sempre tão especial entre amigas.

Há também um movimento mais íntimo, menos visível. Muitas mulheres querem entender o vinho porque gostam de abrir uma garrafa em casa, sozinhas. O vinho como companhia de um livro, de uma boa música e daquele momento de silêncio no fim do dia. Não é sobre impressionar ninguém. É sobre prazer próprio.

Talvez um dos sinais mais delicados dessa mudança seja outro. Mulheres que vão engravidar me escrevem pedindo indicações de bons vinhos sem álcool. Elas não querem se afastar do universo que aprenderam a apreciar. Querem continuar participando dele, ainda que temporariamente, de outra forma. Isso mostra o quanto o vinho passou a fazer parte da rotina e do prazer dessas mulheres.

Durante muito tempo criou-se a ideia de que mulher deveria beber vinho leve, delicado e rosé, como se existisse um estilo feminino pré-determinado. Essa simplificação nunca fez sentido. Mulher não deve beber rosé porque é vinho de mulher. Deve beber o que quiser. Espumante, branco, tinto leve ou estruturado, vinho laranja ou um bom fortificado. A questão nunca foi cor ou corpo. A questão é qualidade.

O que eu tenho visto é algo muito mais interessante do que uma mudança de rótulo. Há uma mudança de postura. Mulheres brasileiras estão interessadas em beber bem, entender o que estão colocando na taça e escolher com segurança

Escolher o vinho é escolher o tom do momento. É decidir o ritmo da conversa. É assumir a condução da experiência. E hoje isso acontece com uma naturalidade que talvez passe despercebida para muitos, mas não para quem observa de perto, como eu.

Se o vinho sempre foi símbolo de encontro, hoje ele também é símbolo de autonomia.

E talvez o maior brinde deste Dia das Mulheres esteja exatamente nisso. Na liberdade de escolher, estudar, perguntar e brindar, sozinha ou acompanhada. Não como exceção, mas como protagonista da própria taça.

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Sobre Elaine de Oliveira

Especialista em vinho e viagem, apaixonado por compartilhar experiências gastronômicas e destinos únicos ao redor do mundo.

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