Serra Gaúcha: o Brasil que te recebe com vinho e afeto
Enoturismo

Serra Gaúcha: o Brasil que te recebe com vinho e afeto

Nossa colunista Elaine de Oliveira traz um guia completo de um dos roteiros mais famosos do Brasil, de vinícolas a lojinhas artesanais de quitutes regionais e hotéis para todos os gostos

Amo viajar o mundo atrás de histórias e bons vinhos, mas poucas sensações se comparam a voltar sempre a um lugar que a gente pode chamar de nosso. Estar na Serra Gaúcha, repetidas vezes ao longo dos anos, tem sido como assistir a um Brasil cheio de talento tomando forma no copo. Desta vez, estive na região acompanhada de um grupo de alunos e amigos que queriam visitar as vinícolas comigo, em um fim de semana de imersão, desses que misturam degustação, mesa farta, muitos abraços e gente de verdade fazendo vinho de um jeito que emociona.

E se tem uma coisa que eu aprendi em quase duas décadas desvendando regiões vinícolas é que é maravilhoso conhecer o que o mundo faz, mas é igualmente poderoso descobrir, apoiar e prestigiar o que o Brasil está fazendo muito bem também.

E é justamente por isso que preparei um roteiro carinhoso, com lugares e experiências especiais para você sentir de perto o que essa região tem de mais bonito.

Vinícola Valparaíso

Arnaldo e Naiana Argenta, da Valparaíso — Foto: Divulgação
Arnaldo e Naiana Argenta, da Valparaíso — Foto: Divulgação

Começo pela Valparaíso, porque ali mora o tipo de encontro que muda a régua de comparação quando a gente fala do vinho nacional. O Arnaldo Argenta, além de ser proprietário da vinícola, é um dos maiores engenheiros agrônomos do Brasil, daqueles cujos currículos não cabem numa página, mas cuja generosidade cabe num abraço demorado na chegada.

Ao lado da filha, a Naiana Argenta, que toca a vinícola da família, eles fazem vinhos com mínima intervenção, o que significa que o papel do enólogo aqui é acompanhar, não fazer maquiagem, entende?

Eu sou especialmente encantada pelo Nebbiolo deles: leve, floral, elegante e com taninos quase sussurrados, perfeito para acompanhar conversas demoradas e muitos risos na brisa fria do fim da tarde em Barão, região onde está localizada a vinícola. O Pinot Noir repete o charme: fruta fresca, acidez na medida e aquela sensação de encaixe natural no paladar.

E não posso deixar de citar o espumante feito com as uvas Moscatel e Torrontés Maturana, uma raridade aromática cultivada na região. Para mim, o melhor nesse estilo feito no Brasil. Perfume, frescor, leve dulçor equilibrado com a acidez perfeita e borbulhas precisas, tudo no mesmo copo. O laranja feito de Garganega, que adoro e que acaba de ganhar um prêmio importante na Itália, terra de origem dessa uva e também do Arnaldo Argenta, além dos brancos feitos de Torrontés e Moscato de Alexandria que são maravilhosos e merecem muito a sua atenção também.

Eles recebem grupos para conhecerem a produção dos vinhos de perto, com passeio pelos vinhedos, e, caso o grupo queira um almoço especial harmonizado, eles contratam o chef Wander Bresolin, que é talento puro e dá um show toda vez que vou lá. É uma experiência e tanto, sua comida harmonizada com os vinhos maravilhosos da Valparaíso.

Se a ideia é prolongar a experiência, eles têm também uma casa de hóspedes para aluguel por temporada dentro da propriedade, ideal para quem gosta de acompanhar de perto uma produção de vinhos e passear pelos vinhedos sem pressa.

Vinum Terra

Edgar e Marilei Giordani, da Vinum Terra — Foto: Divulgação
Edgar e Marilei Giordani, da Vinum Terra — Foto: Divulgação

Aqui o brinde começa antes de entrar. O Edgar Giordani nos recebe na porta com o acordeão nos braços e aquele sorriso largo que diz “sejam bem-vindos, a casa é de vocês”. Edgar, além de enólogo, é também músico e apicultor, o que já entrega muito do que ele faz: vinhos que nascem com trabalho manual intenso, criatividade sem exibicionismo e uma conexão profunda com o ciclo da natureza.

Situada em Monte Belo do Sul, a vinícola segue os princípios da biodinâmica, o que é lindo e corajoso, porque fazer vinhos biodinâmicos no Brasil é um desafio e tanto. Tem que ter muito amor pelo que faz, e Edgar tem. Seus vinhos são 100% naturais e com certificado biodinâmico.

O Brumas do Tempo rouba a cena: um vinho laranja vibrante, fresco, cheio de personalidade, com uma presença bonita sem ser barulhenta.

E se tem um vinho que mora nas minhas melhores lembranças, chama-se Unno, para mim um dos melhores brancos do Brasil com toda certeza. O Fra Stelle Pet Nat deles é outro que vale a atenção, com textura cremosa, acidez deliciosa e aquela energia viva, quase selvagem. É o tipo de espumante natural que te faz entender o produtor, a uva, a história e por que não abrimos essa garrafa antes.

Edgar também faz o Arbitrium, um vinho feito com a uva Isabel, extremamente elegante e totalmente diferente. Recomendo a degustação de todos.

Dentro da vinícola fica a Locanda di Lucca, restaurante que leva o nome do filho, Lucas Giordani, que, mesmo sendo piloto, também ajuda na administração da propriedade. É ali que a magia se completa, com os almoços e jantares harmonizados orquestrados por sua mãe, Marilei Giordani, que assina a arquitetura da vinícola e o fogão também. Marilei cozinha com produtos 100% da horta e ingredientes biodinâmicos, incluindo queijos de produção local, embutidos e, claro, mel das próprias colmeias da família.

Para quem quiser estender a experiência, a Vinum Terra tem casa de hóspedes interna para quem busca esse aconchego com exclusividade. De frente para os vinhedos e com o canto dos pássaros como trilha sonora, a casa é linda e não dá mais vontade de ir embora.

La Grande Bellezza

Rossano Biazus e Cristiana Petriz, da La Grande Bellezza — Foto: Divulgação
Rossano Biazus e Cristiana Petriz, da La Grande Bellezza — Foto: Divulgação

Agora, respira. Porque a coisa aqui é cinematográfica.

Andar na vinícola do casal Cristiana Petriz e Rossano Biazus é quase como visitar um cenário criado especialmente para nos fazer suspirar. Os vinhedos da propriedade são, com toda certeza, alguns dos mais belos do Brasil. Eles nos recebem na casa deles como se fôssemos da família, e é nesse clima de acolhimento, tudo com muito cuidado e extremo bom gosto, que a experiência acontece.

A vinícola é um sonho antigo do casal, que encontrou em Pinto Bandeira o terroir perfeito para produzir seus vinhos. Por lá, eles plantam Chardonnay, Chenin Blanc, Trebbiano Toscano, Merlot, Grenache, Tannat, Cabernet Franc, Petit Verdot, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional e Aspirant Bouschet, uma uva tintureira rara de origem francesa com polpa bem vermelha, conhecida por produzir vinhos de cor púrpura intensa, grande estrutura, corpo e taninos marcantes, e com ótimo potencial de envelhecimento.

Começamos a degustação com o espumante Blanc de Blancs deles, que é um espetáculo à parte. Cremoso, complexo e vibrante, assim como o Farfalline Brut, que não fica atrás, com sua complexidade que encanta igualmente.

Eles ainda produzem a linha de vinhos varietais “Madames”, com rótulos desenhados pela artista Lu Mourelle. As criações são personagens carregadas de expressão e lindas. Meus favoritos são o Madame Gi e o Madame Rara.

Além deles, recomendo provar também o Audeo, Baraonda e Ossessione, todos excelentes.

Próximo à vinícola fica o espaço Vicolo, que conta com wine bar, loja de vinhos exclusivos da vinícola, espaço para eventos e também degustações com tábuas de frios e chás artesanais produzidos por eles.

É brinde obrigatório no roteiro da Serra.

Cave Geisse

Mauro Geisse, da Cave Geisse — Foto: Divulgação
Mauro Geisse, da Cave Geisse — Foto: Divulgação

Se existe um templo do espumante brasileiro, é aqui. O lado técnico da história é impecável, mas o que encanta mesmo é viver o lugar. A produção segue o método tradicional, o Champenoise, e cada etapa é tão precisa que deixa qualquer pessoa orgulhosa do que o Brasil já sabe fazer com maestria. O gênio por trás disso é o enólogo e fundador, Mário Geisse, acompanhado do filho, Daniel Geisse, que hoje dirige a operação com a mesma paixão e profissionalismo do pai.

Os espumantes da Cave Geisse são super premiados e considerados os melhores do Brasil por especialistas, por enófilos que formam uma legião de fãs pelo país e fora dele, e por mim também. Eles são mestres no que fazem.

Uma das minhas experiências preferidas na vinícola é o passeio de 4x4. O trajeto começa entre colinas suaves e vinhedos que se estendem até onde a vista alcança. O carro segue por trilhas estreitas, contornando matas, clareiras e pontos altos que revelam panoramas impressionantes da propriedade. A cada parada, um novo brinde e uma nova paisagem: ora o verde profundo das folhas, ora o dourado da luz batendo nos cachos. As degustações acontecem nesses pequenos mirantes naturais, criando um encontro perfeito entre lugar, clima e taça.

E não para por aí. Depois do passeio, seguimos para dentro da vinícola para entender o processo de produção dos espumantes de perto, o que, aliás, é uma verdadeira aula.

Para acompanhar a degustação que vem a seguir, as empanadas feitas pela própria família entram em cena no lounge da vinícola, que é um espetáculo visual: lindo sem ser pretensioso.

Não saia de lá sem provar o Cave Amadeu Nature e o Laranja. Mesmo sendo da linha básica, já são incríveis. Da linha Cave Geisse, meus favoritos são o Nature, o Blanc de Blancs e o Blanc de Noirs. Mas, sendo muito sincera, qualquer um que você decidir degustar vai te fazer feliz, isso é uma certeza.

E agora vem a notícia quente: no mês passado, eles inauguraram o 1979, um espaço incrível para eventos, com vista cinematográfica para os vinhedos e gastronomia sob o comando do talentoso chef Vagner Paim. Os almoços e jantares harmonizados são espetaculares, com pratos elaborados com precisão e uma equipe de atendimento impecável.

A visita é completa, é o Brasil se expressando lindamente, e eu recomendo de olhos fechados.

Cristofoli

Vista da varanda do restaurante da Cristofoli — Foto: Divulgação
Vista da varanda do restaurante da Cristofoli — Foto: Divulgação

A história da Cristofoli é sobre herança que se mantém, mas se reinventa com juventude e muito trabalho. Fundada pela família que vive há mais de 135 anos na região de Faria Lemos e sempre cultivou uvas de origem italiana, como Sangiovese, Moscato, Peverella e Barbera.

Os primos Bruna, Letícia e Tomás Cristofoli, que hoje tocam a vinícola, cresceram no vinhedo, mas não estão ali apenas continuando um negócio: eles lapidaram a identidade atual da vinícola.

O restaurante Cristofoli Enogastronomia, dentro da propriedade, é maravilhoso: varanda ampla, vista para as videiras, um pôr do sol que vira quase ritual diário de quem passa por ali e que vale um brinde especial. A cozinha é regional, eles fazem um ossobuco que é de comer ajoelhado. Almoços e jantares harmonizados são possíveis com reservas.

Além disso, oferecem várias experiências de enoturismo, como o Edredom nos Parreirais, o Almoço Harmonizado no Vinhedo, a Degustação de Vinhos Harmonizada com Queijos, a Degustação Indicação do Sommelier e a experiência na colheita das uvas, na qual você pode comer uvas e pisá-las na experiência Entardecer de Vindima.

Não deixe de provar o Instinto Chardonnay, o Rosé de Sangiovese e o Cabernet Franc Coleção Especial, são os meus favoritos.

Resumindo: trabalho em família, paixão compartilhada e ótimos vinhos. Vale super a pena a visita.

Larentis

Festa da colheita da Larentis — Foto: Divulgação
Festa da colheita da Larentis — Foto: Divulgação

A Vinícola Larentis carrega uma história clássica de imigração italiana na Serra Gaúcha. A família chegou da Itália no século XIX, se estabeleceu no Vale dos Vinhedos e hoje já soma cinco gerações de história. Quem toca a vinícola é o enólogo André Larentis, que faz parte da quinta geração da família e transformou seu legado em ótimos vinhos e um enoturismo acolhedor.

A vinícola promove todo ano a Festa da Colheita, com mesas entre as videiras para um jantar exclusivo ao som de música ao vivo, onde você faz a colheita noturna das uvas no vinhedo Arcangelo, cultivado pela família há mais de 140 anos, e participa da criação de um rótulo único elaborado com as uvas colhidas por você. Depois ainda recebe uma garrafa deste vinho, entregue após o período de maturação de aproximadamente 20 meses.

Além disso, oferecem diferentes tipos de degustação na sala de barricas e o Piquenique nos Vinhedos, que já virou assinatura do roteiro: cestas pensadas para compartilhar, sabores locais, cenário que faz mais que compor, ele participa. O pôr do sol é protagonista, o dia acaba dourado, tão lindo que chega a ser impactante. Possuem também um restaurante excelente para almoços e jantares harmonizados, com atendimento primoroso e um astral leve.

Recomendo provar o espumante Cuvée Spéciale Nature, o Branco Flos Reserva Especial feito de Chardonnay e Viognier, o Marselan Cepas Selecionadas e o Mérito Gran Reserva, todos excelentes.

Comer é parte do brinde

Pietra Trattoria — Foto: Divulgação
Pietra Trattoria — Foto: Divulgação

Minha dica para comer bem é o Pietra Trattoria. Instalada no histórico Casarão Barp, de 1905, o restaurante ocupa uma daquelas joias arquitetônicas da Serra: porão de pedra, dois andares de madeira e tábuas inteiras retiradas dos pinheiros da própria região. O espaço fica no Parque Domadores de Pedra, com 55 esculturas de pedra a céu aberto de artistas de mais de 30 países, e integra o projeto sociocultural do Instituto Tarcísio Michelon. O mais bonito disso tudo? A renda da bilheteria financia aulas de música para crianças em situação de vulnerabilidade. Quando você visita, você apoia essa história.

Na cozinha, a alma é italiana. Os pratos nascem de tradição, de afeto e de um respeito enorme pelo que veio antes. Valorizam o ingrediente, o produtor local, a comunidade que sustenta tudo. É comida que carrega memória, mas chega à mesa leve, atual e cheia de verdade.

Embaixo tem a loja de joias e e semijoias Porão de Pedra que adoro, com pedras lapidadas e brutas, que vale muito uma passada por lá após o almoço. E logo ao lado tem a Casa da Ovelha, com queijos, embutidos e produtos feitos com leite de ovelha e sabores locais que merecem uma parada estratégica no seu roteiro.

Doçura não é detalhe, é cultura

Doces coloniais Angelo Gabriel — Foto: Divulgação
Doces coloniais Angelo Gabriel — Foto: Divulgação

E aqui vai a confissão mais honesta de todas: não tem como sair da Serra Gaúcha sem uns potes de chimia na bolsa.

Minha parada favorita é a lojinha Angelo Gabriel, pequena e simples, mas enorme no que oferece. Comandada pela senhorinha mais doce e querida, a Dona Gema, que faz os doces coloniais com frutas colhidas na propriedade e que eu sou completamente apaixonada. Para mim, é parada obrigatória.

A chimia, para quem não sabe, é um doce rústico e tradicional feito de figo, mas lá você vai encontrar em sabores de uva, amora, pêssego e por aí vai. Vai fácil na colher, no queijo, no pão e na memória.

E já que estamos falando em doce, os chocólatras de plantão podem ficar felizes. Eu, por exemplo, nunca volto para casa sem uns bons chocolates artesanais da Devorata. Vale muito uma paradinha lá também.

Hospedar também é degustar

Plaza Hotel & Boulevard Convention — Foto: Divulgação
Plaza Hotel & Boulevard Convention — Foto: Divulgação

Na Serra Gaúcha, a escolha da hospedagem muda o ritmo da viagem e, muitas vezes, até o sabor dos dias. Eu costumo alternar entre dois lugares que têm personalidades bem diferentes, mas que sempre me deixam com aquela sensação boa de estar exatamente onde eu deveria estar.

Quando estou com grupos, cursos, viagens guiadas, amigos ou família grande, o Plaza Hotel & Boulevard Convention é aposta certeira. Instalado estrategicamente entre Garibaldi e Bento Gonçalves, ele funciona como um hub completo para quem quer viver o Vale dos Vinhedos sem correr de carro o tempo todo. É um hotel grande, pensado para receber grupos: quartos modernos, estrutura para eventos, um boulevard com restaurantes, um café da manhã riquíssimo que não falta absolutamente nada e é incrível. Tem piscina coberta, spa, sauna e uma logística que facilita itinerários de enoturismo, perfeito para quem quer eficiência sem abrir mão do conforto.

Hotel Casa Curta — Foto: Divulgação
Hotel Casa Curta — Foto: Divulgação

Já quando a viagem pede algo mais intimista, eu troco totalmente de atmosfera e vou para o Hotel Casa Curta, um hotel boutique cheio de charme, com vinoteca e restaurante próprio ótimo, piscina térmica com jacuzzi, sauna e cantinhos que convidam a ficar. Ele tem aquela sensação de refúgio, perfeito para quem quer desacelerar, abrir uma boa garrafa de vinho e simplesmente aproveitar o silêncio da serra. Café da manhã personalizado e uma experiência muito aconchegante.

Dois estilos diferentes, para momentos diferentes, e ambos deixam a experiência do Vale ainda mais gostosa.

E a nota mais importante de todas: a gente pode viajar o mundo, e eu amo fazer isso. Mas quando a gente vive o olhar apaixonado, profundo e dedicado de um produtor brasileiro cuidando da vinha como se cuida de alguém da própria família, ali mora o brinde mais especial de todos.

Valorizemos o que nasce aqui. Porque o Brasil está se servindo na melhor taça também!

E

Sobre Elaine de Oliveira

Especialista em vinho e viagem, apaixonado por compartilhar experiências gastronômicas e destinos únicos ao redor do mundo.

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