Se tem uma coisa que eu aprendi depois de tantas viagens pelo mundo do vinho, é que certos lugares não são apenas para visitar – são para sentir. E foi exatamente isso que aconteceu na minha última passagem por Portugal, quando me deixei levar pelo charme da Região Saloia. Aquele tipo de lugar que a gente mergulha em sabores, histórias, pessoas e paisagens que acolhem a gente. Foi o que vivi ao explorar essa região — um conjunto de vilarejos e áreas rurais que abraçam Lisboa pelas bordas, onde o tempo parece andar no seu próprio ritmo, e as pessoas te recebem como se fossem da família. Historicamente, "saloio" designava os habitantes das zonas rurais ao redor da capital portuguesa, descendentes de mouros, conhecidos por abastecerem a cidade com produtos agrícolas frescos.
Se você está em Lisboa e quer continuar na cidade, dá pra fazer um bate e volta tranquilamente, mas caso prefira se hospedar por lá, como eu fiz, vale muito a pena também. Se o que você gosta são bons vinhos, paisagens lindas e comida de verdade, a Região Saloia pode ser exatamente o que procura. Menos turística do que outras rotas famosas de Portugal, essa região é um segredo bem guardado — mas não por muito tempo.
É o berço de alguns dos vinhos mais surpreendentes de Portugal e comida farta. Passei por Bucelas, Mafra, Colares e Sintra, e voltei apaixonada. Aqui estão as melhores dicas pra você montar seu próprio roteiro sem erro.

Minha base inicial foi a acolhedora Aldeia da Mata Pequena, uma hospedagem totalmente diferente de todas que já estive. São 12 casinhas de pedra restauradas com todo cuidado, mantendo a arquitetura original, que oferecem um mergulho na vida rural portuguesa do século XIX. Se você gosta de um lugar tranquilo, cheio de charme e com cara de cenário de filme precisa conhecer este lugar. Hoje a aldeia é uma pousada que nos dá a sensação de estar hospedado num pedacinho do passado — mas com conforto e bom gosto. Passei dias inesquecíveis neste lugar, sentindo-me parte da história viva que aquelas paredes de pedra contam e, confesso, saí já sonhando em voltar. O silêncio, a simplicidade e a beleza, fazem a gente desacelerar e se conectar com o que realmente importa. Isso sem contar que acordar com o canto dos pássaros e receber o pão quentinho pendurado na porta todo os dias, não tem preço. Se quiser jantar na própria aldeia, recomendo conhecer a Tasquinha do Gil, que serve pratos típicos, simples e muito saborosos.
De lá, parti para explorar os produtores de vinho da região. Comecei em Bucelas, uma vila pequena e charmosa, terra de vinhos brancos feitos principalmente de Arinto, uma uva branca que produz vinhos frescos, vibrantes e que evoluem lindamente com o tempo.

Visitei a Biogrape, um projeto familiar que produz vinhos orgânicos com alma, foram os primeiros a produzirem vinhos orgânicos D.O.C. da região. A filosofia do produtor Paulo Alves, é clara e inspiradora: somos aquilo que comemos e bebemos, acreditamos que o cuidado com a terra, o respeito ao meio ambiente e as práticas sustentáveis são fundamentais. Os vinhos que levam o nome à PARTE são maravilhosos, recomendo provar todos.
Depois fui para a Enoport e mergulhei na história das Caves Velhas, uma das mais emblemáticas da região, e fiquei impressionada com a cave antiga que eles mantêm preservada. Ali, repousam vinhos com mais de 100 anos, num ambiente que parece congelado no tempo. As paredes são cobertas por estalactites naturais formadas ao longo das décadas, criando um cenário impressionante. Não deixe de provar Quinta de Boição Arinto Pelicular e o Licoroso, são excelentes.
Para almoçar na região, recomendo o Barrete Saloio que é daqueles restaurantes típicos que a gente agradece por ter encontrado: comida caseira, sem firula, farta e cheia de sabor, como manda a tradição portuguesa e também o restaurante Chão do Prado, situado em meio aos vinhedos da vinícola que leva o mesmo nome, oferece pratos harmonizados com os vinhos locais, proporcionando uma verdadeira imersão gastronômica. A visita à vinícola é imperdível, a Chão do Prado foi pioneira na produção de espumantes na região, que é incrível por sinal, não deixe de degustar! Fui recebida com muito carinho pelos produtores Mafalda e António João Paneiro Pinto, que preparam uma degustação com os vinhos deliciosos da vinícola, na varanda com uma vista belíssima para os vinhedos.

Fechando Bucelas com chave de ouro, visitei a Quinta das Carrafouchas, construída no início do século XVIII, é um projeto familiar onde o Sr. António Maria, que é um grande personagem no universo do vinho da região, recebe todo mundo de braços abertos e cheio de simpatia, como se fosse da casa. Diferente da maioria dos produtores da área, ele produz praticamente só tintos, todos adoráveis, meu favorito foi o Çaloyo. A propriedade é linda, com uma vibe quase de conto de fadas, e não deixe de visitar a capela dentro da propriedade que é uma verdadeira jóia no estilo barroco.

No dia seguinte fui para Colares, uma das minhas regiões favoritas em Portugal e que faz vinhos que amo! Colares produz vinhos como nenhum outro lugar: videiras centenárias plantadas na areia geram vinhos com salinidade, força e identidade própria. A primeira parada foi logo em uma das vinícolas mais especiais, a Ramilo Wines, um projeto que eu já admirava de longe e que me emocionou muito de perto. O produtor Nuno Ramilo, além de ser um querido, é talento puro. Faz vinhos naturais impressionantes, cheios de personalidade, onde a natureza é muito bem representada na taça. Eles possuem duas vinícolas, essa que fica em Colares e outra em Mafra, conheci as duas e vale investir seu tempo para ir pessoalmente em ambas. Difícil é recomendar somente um vinho, se puder, prove todos! O Galego Dourado Branco foi um dos meus preferidos.
Outro produtor que vale sua atenção na região é o Mare Et Corvus, fiquei sem palavras com o vinhedo deles — que é o vinhedo mais ocidental da Europa, literalmente na beira de um penhasco, com o Oceano Atlântico se espreguiçando à frente. É, sem dúvida, uma das paisagens mais impressionantes que já vi na vida. O casal de produtores Sra. Bárbara e Sr. João, nos receberam com carinho na Adega do Cais, espaço que eles criaram para receber visitantes e onde também é possível agendar almoços e jantares especiais. Coloque na sua lista de degustação tanto o branco Mare Et Corvus assim como o tinto.
Parei para almoçar em Azenhas do Mar, um dos vilarejos mais fotogênicos de Portugal, com casinhas brancas cravadas nas falésias e uma vista de tirar o fôlego para o Atlântico. Ali, uma piscina natural esculpida entre as rochas convida a um mergulho — um cenário simplesmente inesquecível.
Outro produtor que eu não poderia deixar de incluir é a Quinta de San Michel, também em Colares. Já conhecia os vinhos, mas estar ali foi ainda mais especial. O Malvarinto de Janas, leva esse nome por ser feito com as uvas Malvasia e Arinto, é daqueles vinhos que a gente guarda na memória (e na mala, claro). É um projeto familiar cheio de personalidade e sabor.

E finalizando Colares eu não poderia deixar de visitar a Adega Regional de Colares, onde a experiência é quase didática — no melhor dos sentidos. É uma das cooperativas mais antigas do país, e guarda rótulos que envelhecem por anos antes de chegar ao mercado. Provei um Ramisco profundo, daqueles que você não esquece, e também visitei a vinícola Viúva Gomes, com mais de 200 anos de história, que segue firme com sua produção tradicional — e que vinhos! Elegantes, finos, mas com aquele toque salino e selvagem que só Colares tem.
Saindo das vinhas, fui conhecer também o projeto Agora Sim, criado pelo casal Rita e Diogo. Eles cresceram entre Mafra e Sintra e decidiram mostrar o que há de mais bonito na região a bordo de carros antigos. É um passeio super divertido, que mistura turismo, gastronomia e muitas histórias boas. Recomendo demais.

Em Mafra me hospedei na pousada Ninho Saloio, uma hospedagem acolhedora e deliciosa. Sabe aquela sensação de estar hospedada na casa da sua tia preferida? Foi mais ou menos isso. A proprietária Anabela Quinhão, com seu olhar sensível e muito bom gosto, cuida de cada cantinho com um carinho enorme, desde a horta impecável até a decoração e louças lindíssimas. Além disso, é uma cozinheira de mão cheia, prepare-se para comer muito bem por lá. O que inclui o maravilhoso café da manhã, farto e cheio de delícias caseiras.
Visitando a região, não podia deixar de conhecer o Palácio Nacional de Mafra, um dos monumentos barrocos mais impressionantes da Europa — imenso, belíssimo, cheio de história e arte em cada sala — e a Tapada Nacional de Mafra, um parque natural que foi criado como reserva de caça da realeza, mas hoje é um lugar incrível para caminhar, observar animais, respirar ar puro e se conectar com a natureza. As duas visitas são bem diferentes entre si, mas igualmente marcantes.
Almocei no João da Vila Velha, que ganhou meu coração com um arroz de moelas daqueles que a gente só encontra em Portugal — de ajoelhar. Comida caseira da melhor qualidade, ambiente simples e acolhedor, e uma carta de vinhos enxuta, mas muito bem escolhida.

Tem produtor bacana por lá também, como a Adega de Azueira, uma cooperativa tradicional da região, com vinhos produzidos a partir de vinhas cultivadas por pequenos produtores locais. Vale a parada para conhecer e provar os rótulos Vingrand Edição Especial e o Magnânimo D. João V Grande Reserva, rótulos cheios de força, mas também elegância.
E não dá pra sair de Mafra sem passar na Aldeia José Franco, um museu a céu aberto que é uma verdadeira viagem no tempo. A aldeia recria o cotidiano das vilas portuguesas de antigamente — tem mercearia, padaria, escola, tudo em miniatura e com um cuidado nos detalhes que emociona. É um passeio rápido, mas que fica na memória.
Pra fechar a viagem, tive um jantar daqueles que a gente leva no coração: no Tasco Galapito, onde fui recebida pelo casal Sra. Amélia e Sr. Luis Galapito, na casa da família. Comemos uma leitoa assada lentamente, que derrete na boca, rodeados de boas risadas e conversa boa. Foi o tipo de jantar que aquece — pelo sabor, pelo acolhimento e pelo afeto que eles colocam em cada detalhe.
Foi nos sabores, nas paisagens e nos encontros que a Rota Saloia me ganhou de vez. E me deixou com aquela sensação boa de que, às vezes, o que a gente procura está mais perto do que imagina, logo ali, ao lado das grandes cidades — é só sair do roteiro óbvio e se deixar surpreender.




